sábado, 12 de dezembro de 2009

Parte 2: Alcool, Psicodelia e Matéria

Desde jovem eu sonho. Mofei, esperando o tempo se retrosceder em suas entranhas e rasgar seu próprio peito, corrompendo as artérias, entupindo seu coração de si mesmo e se enchendo do meu mundo e do meu viver. Nada retroscedeu...
O coração batia forte e rápido, quase parando eu me vi, estava de volta aonde pertencia, me senti acolhido em meus próprios braços, nascido de mim mesmo, era eu, minha criação. Vi um alfandróide, meu criador e me vi frágil, sem pálbebras, sem dentes, pele, cabelo, unhas, mas ainda assim fortificado.
Esta foi a ultima vez que vi meu criador, e desde então eu sonho. A minha vontade de voltar aonde um dia eu estive e ainda hoje pertenço me corrompe os pensamentos e assim rasgo meus demônios ao meio, e me omito em mim mesmo após o grito de guerra com gosto de sangue e cheiro de quimio. Para mim, isso era o suficiente para poder voltar ao meu mundo de um borrado branco e solidão compartilhada.
...Achei minha sarjeta, entrei no subterraneo, mas não achei meu mundo, vi o paraíso de perto, a solidão, o silencio, a calmaria, as arvores, os passaros, as cachoeiras, o céu azul e o sol estonteante. Porém, não era o meu mundo, logo entrei em desespero e encolhi meus orgãos e meu corpo, retirei minha pele e meus olhos e engolhi minha lingua, para soltar um grito de dor, que tão baixo, ninguem ouviu na superficie.
Voltei as ruas, as passagens cheias, voltei a caminhar entre os fantasmas e os filhos desligados e atraídos a uma falsa realidade. Entrei em um bar, abandonado aos pensadores lerdos e aos trogloditas de péssimas faces, barbas grandes e sujas, cabelos cumpridos e presos com o próprio sebo dos mesmos. Pedi ao dono daquele lugar que me servisse um copo da bebida mais forte e que deixasse a garrafa no balcão.
Logo no primeiro gole senti a minha fragilidade e me senti envergonhado ao lembrar de que me achei fraco ao me ver como criador. Bebia cada vez mais, a cada gole parecia ingerir mais liquido de uma vez só, e fui perdendo a noção do tempo e do espaço, de repente minha memória começava a ser roubada de mim e minha vida parecia estar sendo sugada por um tubo, me senti um rato de teste, me senti uma experiencia barata sendo desligada.
Olhei dentro do copo, avistei bolhas que saíam cada vez maiores até que uma delas quebrou o copo, ou apenas o trincou, não lembro ao certo. Dentro desta, estava eu, me olhando e chorando, um choro calmo, sensato, o que me fez, eu do lado de fora da bolha, retrosceder o tempo, desde então, achei ter me encontrado com meu criador. O que me assustava, pois o havia encontrado através de um estado deplorável, mentalmente falando, já que não lembro da minha aparencia nesse dia.

Tentei mais uma ou duas vezes, me achar de novo do mesmo modo, mas as tentativas foram em vão.

Meses se passaram...

Estava eu no meu quarto confortável, com um fone nos ouvidos, escutando o bom e velho rock'n roll psicodélico no ultimo volume. Fechei os olhos e estranhamente, como no suspense de uma cena de um filme de terror, comecei a ouvir vozes num som instrumental, chamavam meu nome e proclamavam histórias antigas sobre mim mesmo, mais antigas do que a minha memória poderia chamar de meu. Meus olhos fechados, da imagem escura começaram a me mostrar um fundo branco, borrado, turvo... não me sentia mais no mesmo lugar, me sentia distanciando de mim como um eco que vai enfraquecendo na montanha.
Me encolhi, em matéria inquebrável me tornei e me aspirei para dentro do meu fone, finalmente estava de frente pra mim mesmo...
Foi quando me vi pela primeira vez, pela segunda vez.